segunda-feira, 6 de março de 2017

Auto- Retrato.

       
      Fiz de mim tinta, fluída e leve marcando ponto a ponto um papel. Marco ainda as transições de uma vida sempre a iniciar, sempre á espera do "grande momento". É fato que, o desdobramento para caber nessa espera tão implacável dos dias traz consigo um peso ardoso que desce pela garganta toda vez que precisa correr. 

       E correndo, às  vezes tropeça, às vezes se nega, às vezes é automática, às vezes é órgão, às vezes é só resultado. 

       Fiz de mim chuva, fluída e pesada, esperando cada trovoada para sussurrar a dor e o medo que a constroem. É feita de tantas manias e vontades, de artes, de teoria, de escrita e sonhos. É papo dizer sempre: está "tudo bem", essa fôrma toda pronta de coração rígido que se espera para viver lá fora, não cabe mais.

      E sussurrando tenta se ouvir.

     Fiz de mim fotografia, instante, não havia o que esperar nem voltar. Estava ali a história parada, com um sorriso meia boca, sem esperar a foto espontânea, caso soubesse, vestiria sim a sua roupa de "sorriso largo". Porque? É real dizer que há sim vitalidade de um sorrir colgate?
   
     E quase sorrindo, registrou.

    Fiz de mim, possibilidade, fluída e confusa, caminhei em estrada, não tinha mais o que esperar. Soube que a tinta, os passos ao correr, o sussurro e o instante contavam muito sobre si, era auto- retrato, às vezes manchado por consequências bizarras que nem estavam ao alcance de si. Outras tinham cores vividas e sorrisos autenticados de felicidade (aquela coisa que todos procuram e não aproveitam, até mesmo ela).

     E com ansiedade viveu.

    Boba, teve medo de fazer de si monotonia de trânsito, teve anseio em pensar se era ideal realizar os planos, teve tempo de ter e ser, estava lá tudo anotado na agenda, era esse seu remédio para o descontrole: manter tudo controlado.

   Fiz de mim, coragem, dei nome aos traços, finos e fracos. Analisei com os olhos quem era e sou, reuni informações secretas que foram traçadas para se colocar a frente, amostra. De fato, o estado atual é complexo, intermitente, com fraturas sentimentais expostas (mesmo que secretas), recomenda-se a leitura com a lente alma, nada mais.

 E ao encontro, foi. 

Não quero me ler, concluí. 

Fiz de mim, força, apetece- me "aqui-agora". Experienciar os elementos que farão parte desse auto- retrato que não agrada as vezes e não gera visualizações, mas que poderá dizer que se agradou ao decidir viver.



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